Você já parou para pensar que os estereótipos de aparência têm uma grande influência no nosso dia a dia e podem representar alguns perigos, especialmente em ambientes organizacionais na questão da liderança? Por exemplo, quantas vezes, em uma entrevista de emprego, a pessoa na liderança pressupõe que uma pessoa candidata é mais capacitada puramente por como ela se apresenta? Isso é real e se chama efeito Halo. 

O efeito Halo está altamente associado com um conceito da psicologia chamado enviesamento cognitivo, em que acreditamos naquilo que queremos acreditar, distorcendo a realidade. 

Não sabia da existência dessa condição? Além disso, não sabia que você pode ter influência desse enviesamento nas suas relações e nas decisões em diversas áreas da vida? Então, aprenda mais sobre isso para saber como você pode reconhecer esse comportamento e evitá-lo sempre que possível! Confira o conteúdo disponibilizado neste post abaixo:

Boa leitura!

O que é o efeito Halo

O efeito Halo é uma condição de distorção de realidade proporcionado pela nossa mente, em que há uma tendência para escolher uma característica positiva específica de uma pessoa, produto ou objeto e fazer com que essa se sobressaia, nos influenciando a acreditar que, por conta dessa característica específica, o indivíduo ou objeto apresente outros traços positivos

Caso a definição tenha ficado um pouco complexa de entender, vamos simplificar com um exemplo. Suponhamos que você conheça uma pessoa e ela, à primeira vista, constitui o que você considera que seja uma pessoa atraente. Por conta disso, você pode acabar inferindo que essa pessoa seja também inteligente, esperta e educada, mesmo que a aparência não ofereça nenhuma pista desses outros traços de personalidade. Isso é o efeito Halo. 

No entanto, esse efeito não se baseia unicamente na atração pela aparência. Outras características podem fazer com que o efeito aconteça. Por exemplo, você conhece uma pessoa que seja bastante amigável e, automaticamente, você acredita que ela seja confiável por conta disso. 

O efeito Halo se baseia e age em conjunto a um conceito chamado “enviesamento cognitivo”, ou, como ficou conhecido, percepção seletiva, em que você escolhe perceber um traço característico ou uma qualidade que reforce suas crenças, experiências prévias ou ideologias, deformando também a realidade. 

Origem do termo “efeito Halo”

O termo foi cunhado na década de 1920 pelo acadêmico behaviorista Thorndike, que conseguiu reconhecê-lo por meio de evidências empíricas, ou seja, por meio de pistas experimentais. Inicialmente, era um termo somente utilizado para pessoas devido ao âmbito psicológico, mas logo ele se estendeu também para o marketing e áreas afins. 

Ele se chama efeito Halo pois, em inglês, essa palavra significa “Auréola”, aquele círculo acima da cabeça muito utilizado em artes religiosas da idade média para expressar figuras que eram santas ou completamente boas. Esse conceito ganhou esse nome em decorrência de uma metáfora, já que no efeito Halo há a tendência de “santificar” uma pessoa a partir de um traço específico que escolhemos evidenciar. 

Dois exemplos de efeito halo. À esquerda, obra medieval de Simone Martini representado Santo Ansano. À direita, anjinho da turma da mônica.
À esquerda, temos uma representação medieval de Santo Ansano (1326), por Simone Martini. Repare no círculo envolta de sua cabeça, representando sua santidade.

À direita, uma figura mais contemporânea e amplamente conhecida pelas atuais gerações. O anjinho, da turma da Mônica, é o personagem mais benévolo das HQs, e também possui uma auréola para representar isso. 

O que é o efeito Horn?

Se a auréola foi o objeto escolhido para representar o efeito de caracterizar uma pessoa como boa a partir de um traço apenas, os chifres fazem esse papel no efeito inverso. O efeito Horn, ou “chifre”, literalmente, é o exato contraponto do efeito Halo. 

O efeito Horn também é uma forma de enviesamento cognitivo em que selecionamos um traço negativo da pessoa para criar uma imagem desfavorável no todo, apagando qualquer possibilidade de características positivas no processo. 

No entanto, assim como o efeito Halo, o efeito Horn também se apoia em percepção seletiva, estereótipos e, na maioria das vezes, preconceitos. Um exemplo seria ver uma pessoa que tem um biotipo corporal distinto dos padrões de magreza considerados atraentes e associar isso a outros traços negativos como “preguiça” ou “saúde debilitada”. 

O que é o efeito Halo Reverso?

O efeito Halo Reverso é o que ocorre quando há uma reafirmação de um traço característico de uma pessoa que é acometida pelo efeito Halo, seja por avaliações ou por outras formas de reconhecimento. Em outras palavras, as pessoas que são vistas sob a lente do efeito Halo podem sofrer consequências negativas, umas vez que foram excessivamente validadas a partir de um erro

Estudos comprovam que pessoas que passaram por esse processo, tanto homens quanto mulheres, têm maiores chances de se tornarem pessoas narcisistas, egocêntricas e vaidosas. No campo penal, outros estudos demonstraram que pessoas que compreendem que sua aparência é valorizada e usam isso ao seu favor para cometer crimes tendem a ter penas mais severas. 

Por quais razões o efeito Halo acontece?

De acordo com pessoas pesquisadoras da área, existem alguns fatores que permitem a existência e ocorrência do efeito Halo. Primeiramente, existe a atração. A atração é um dos fatores mais importantes pois é a partir dela que as pessoas tirarão conclusões. O segundo fator, também bastante importante, é a falta de informação

Assim, o efeito Halo acontece na maioria das vezes em primeiras impressões. Vemos uma pessoa que nos atrai ou que se destaca de alguma forma. Como não a conhecemos e possuímos pouca informação sobre sua personalidade, sua vida e sua trajetória, automaticamente tiramos conclusões sobre como ela é a partir de traços físicos. 

Isso ficou bem evidente nos experimentos de Thorndike, em que oficiais militares deveriam avaliar as pessoas que as serviam em liderança, físico, caráter e inteligência, mas sem nunca antes ter falado com elas. As pessoas que pareciam ser mais altas e atraentes receberam melhores avaliações em inteligência e foram categorizadas como mais prováveis a serem bons soldados. 

Por que é importante saber sobre o efeito Halo?

Como já é de se esperar, o efeito Halo representa uma leitura superficial e pouco assertiva da personalidade de uma pessoa. Portanto, no quesito pessoal, ainda mais do que se trata de questões organizacionais em que há uma relação entre pessoas e liderança, o efeito Halo pode ter consequências bastante negativas. 

Por outro lado, caso trabalhemos com Marketing e áreas afins, esse mecanismo pode nos ajudar a formular estratégias eficientes para chamar a atenção para outros produtos, tornando-os mais atraentes e permitindo a criação de uma marca. 

Conheça os impactos do efeito Halo!

Como já começamos a falar um pouco nos tópicos acima, o efeito Halo pode ter um enorme impacto em mais de uma área de nossas vidas, não somente em questões de liderança. Vamos conhecer alguns desses impactos agora:

O impacto do efeito Halo na liderança!

O maior dos impactos — e o mais perigoso — do efeito Halo na liderança é ter uma pessoa líder que não consegue ver nitidamente o quadro geral no qual está inserida. Isso pode acontecer com sua equipe e pode acabar contribuindo para a falta de colaboração e, consequentemente, a ausência de produtividade. 

Grande parte disso está relacionado ao modo como a pessoa líder trata pessoas da equipe. Isso pode acontecer ainda mais em casos de liderança situacional, em que a avaliação de pessoas colaboradoras é mais importante para definir qual o tipo de atenção cada uma deve receber. 

Para entender como pode se dar o efeito Halo na liderança, vamos supor uma pessoa líder que tem uma grande equipe para gerir, logo, ela não consegue ter muito tempo para ter um contato aprofundado com muita gente. Uma das pessoas dessa equipe é uma pessoa nova, altamente habilidosa, motivo pelo qual foi contratada recentemente. Ela entrou e logo em seguida ajudou a resolver um grande problema, ajudando a pessoa líder. Isso fez com que a pessoa líder tivesse uma ótima impressão de suas habilidades.

No entanto, com o passar do tempo, cada vez mais e mais a pessoa líder vem recebendo reclamações sobre seu péssimo comportamento e falta de colaboração com outras pessoas. Isso faz com a pessoa líder tenha acreditado que tal pessoa fosse uma excelente colaboradora baseado em uma única experiência prévia. Porém, na verdade, essa pessoa estaria acabando com a equipe, sem que a liderança tivesse noção disso.

Outro fator que pode ser bastante prejudicial para equipe é caso essa pessoa fosse (injustamente) promovida e outras pessoas começassem a ser diminuídas por conta dessa primeira impressão, o que resultaria em um tratamento parcial e injusto. 

Em resumo, o efeito Halo na liderança pode ocasionar algumas consequências bastante preocupantes como:

  • promoções injustas e enviesadas;
  • conflitos na equipe;
  • falta de reconhecimento de outras pessoas da equipe;
  • tratamentos desiguais;
  • reconhecimentos falhos;
  • falta de confiança;
  • frustração e desmotivação.

Como o efeito Halo influencia no ambiente organizacional?

Dentro de equipes em ambientes empresariais ou organizacionais, o efeito Halo se expressa nas avaliações qualitativas de desempenho e feedbacks. O efeito é uma das causas mais comuns de enviesamento na hora de responder a essas avaliações. 

Por exemplo, se uma pessoa for muito gentil e atenciosa, porém não muito habilidosa e produtiva em seu trabalho, as primeiras características podem fazer com que ela receba uma avaliação geral melhor do que ela realmente mereceria. 

Em outros ambientes de trabalho menos empresariais, como por exemplo, em um restaurante, o efeito Halo também é uma realidade. Um estudo de 2015 feito por Parret demonstrou que pessoas funcionárias consideradas atraentes que trabalham no salão de um restaurante ganhavam muito mais em gorjetas do que pessoas que não eram consideradas atraentes. 

Como o efeito Halo impacta na educação?

O efeito Halo também tem bastante influência no ambiente escolar, especialmente na relação pessoa educadora-estudante, uma vez que também há um processo de avaliação no qual se pauta essa relação. Logo, professores e professoras tendem a interagir de maneira diferente com estudantes por conta do efeito Halo

Para entender esse funcionamento, vamos usar um exemplo. Uma pessoa educadora tem uma sala com muitas pessoas estudantes. Uma delas sempre está atenta e tende a fazer muitas perguntas relevantes. Uma outra nem tanto. Ambas pessoas sempre estão atrasadas para a aula, mas somente a segunda pessoa é taxada como desleixada. A primeira pessoa, por consequência, está sob efeito Halo.

Isso foi comprovado em um experimento realizado com mais de 4 mil estudantes. Essas pessoas foram separadas em grupos de “abaixo da média”, “na média” e “acima da média”, a partir do quão atraentes elas eram a partir da foto da carteira de estudante. As pessoas que foram ranqueadas acima da média tiveram notas muito inferiores na modalidade online quando comparadas às notas que receberam no regime presencial. 

Como o efeito Halo impacta no Marketing?

Sabemos que o objetivo do Marketing é compreender como a mente humana trabalha a fim de traduzir isso em uma forma de convencimento para que um determinado produto seja bem aceito no mercado consumidor. Logo, um traço psicológico que pode ser uma desvantagem em muitos aspectos da vida pode ser utilizado ao seu favor nesse contexto.

O efeito Halo pode ser aplicado a literalmente qualquer coisa, não necessariamente às pessoas. Logo, objetos, marcas, empresas, tudo pode cair sob as lentes do efeito Halo. 

No Marketing, o efeito Halo opera do seguinte modo: as empresas concentram seus investimentos e forças para criar boas experiências com pessoas consumidoras ao serem lançadas no mercado. Com isso, a visibilidade e reputação da empresa aumenta, assim como sua marca é fortalecida. 

A partir disso, qualquer outro produto ou serviço lançado pela mesma empresa poderá cair sob o efeito Halo, em que clientes fiéis vão cognitivamente acreditar que o outro produto é tão bom quanto o primeiro, baseado na boa primeira impressão que tiveram. 

Marcas também podem jogar com atração para aumentar as vendas de um determinado produto. Vamos supor um alimento que venha embalado em uma embalagem genérica, enquanto o outro exato mesmo produto venha em uma embalagem atraente, com design e cores chamativas. Pessoas clientes podem ser levadas a acreditar que o produto dentro da embalagem mais bonita seja de melhor qualidade — ou que será mais gostoso, terá melhor efeito — que o que está em uma embalagem genérica. 

É assim que opera, por exemplo, a indústria farmacêutica, vendendo medicamentos que possuem a mesma composição que os genéricos, porém como nomes e embalagens mais comerciais. “Novalgina” é um nome atrativo para dipirona sódica.  

Como evitar o efeito Halo? 3 dicas!

Vamos conferir, agora, algumas dicas de como podemos diminuir o efeito Halo em nossa vida cotidiana:

DICA 1: MANTENHA O FOCO E A ATENÇÃO

Ser uma pessoa sempre atenta ajudará a reduzir os erros que partem a partir de um preconceito formulado a partir de uma primeira impressão. Logo, você pode, por exemplo, tentar levantar pontos positivos e negativos em pessoas colaboradoras da sua equipe ou em pessoas candidatas em entrevistas de emprego. Caso você esteja conhecendo alguém novo, busque não se fixar nos seus julgamentos iniciais, mantendo a cabeça aberta para aprender mais sobre a pessoa e criar uma impressão mais alinhada com a realidade. 

DICA 2: DIMINUA A VELOCIDADE DE DECISÃO

Com os dias acelerados que temos, por vezes colocamos nosso cérebro para trabalhar no automático, tomando decisões rapidamente, sem processá-las por completo. O perigo mora aí, pois dessa forma estaremos mais suscetíveis a decisões enviesadas e distorcidas. Se você é uma liderança que está recrutando, não contrate logo depois da entrevista. Pense com bastante cuidado sobre todos os aspectos de cada entrevista e veja o que foi bom e o que não foi tanto. 

Em relação ao trabalho, tenha atenção no que as outras pessoas estão dizendo. Se mais de uma pessoa lhe informar a mesma coisa e você não enxergar isso, pode ser que sua opinião esteja enviesada. 

Se está conhecendo uma pessoa nova, evite engajar em algo sério logo no início. Procure ter mais reuniões e encontros para tomar uma decisão mais acertada antes.

DICA 3: SEJA UMA PESSOA CRÍTICA

Utilize um pensamento sistemático e crítico para analisar com propriedade as informações que chegam até você. Tente se pautar em experiências comprovadas empiricamente que foram um sucesso para pautar suas decisões. Logo, em qualquer decisão que for tomar, seja com sua equipe, em um recrutamento ou no relacionamento com outras pessoas, baseie-se na lógica para um resultado mais eficaz. 

Tanto o efeito Halo quanto o efeito Horn funcionam mais ou menos da mesma forma, pois são como dois lados da mesma moeda. Logo, o que foi dito sobre efeito Halo também se aplica ao efeito Horn. Siga as dicas e evite cair nas armadilhas de ter uma percepção seletiva e um pensamento enviesado.

Assim, será mais fácil construir relações verdadeiras, fortalecer sua equipe no trabalho e proporcionar uma liderança mais justa, caso seja o seu caso. De qualquer forma, as dicas desse texto se aplicam em qualquer área da vida e em qualquer atividade que você vá desempenhar que envolva um contato com outra pessoa. 

Logo, mantenha-se alerta aos sinais de uma possível decisão ou opinião que está sob o efeito Halo ou Horn. 

Agora que você é expert no assunto ‘Efeito Halo’, você pode aprofundar-se em outros temas semelhantes como o Mundo VUCA. Já conhece? Dê uma conferida aqui!

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